quinta-feira, 13 de maio de 2010

paisagem

um homem barrigudo atravessa o viaduto;
a castanha de caju, R$2,00.

prédios da gafisa,
todos iguais:
pé-direito de casa de boneca
e absurda correção pela tabela PRICE.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

coletânea aleatória de haicais em trânsito

na bandeirantes
carros na diagonal:
vou-membora

a marginal pinheiros
não tem nenhum pinheiro
e fede.

no canteiro central
há árvores.
não sei seus nomes.

pq do estado;
vl. mariana.

Vl. Mariana;
Pq. do Estado.

dizes

:me beija
porque eu tenho mil agulhas na minha boca;
me abraça -
porque eu tenho o alimento no meu peito
e a vida na cintura.

do infinito a um ponto qualquer.

:me beija
porque eu tenho mil agulhas na minha boca;
me abraça -
porque eu tenho o alimento no meu peito
e a vida na cintura.
dizes:
nada. tenho mil agulhas na minha boca.

sábado, 1 de maio de 2010

o príncipe que não escalou o monte horaï

-minha senhora, donde fica o monte horaï?

K: Não sei.

-passei três anos navegando; buscando. saí do porto do oeste numa pequena barca e trouxe até de testemunho dois bravos servos. enfrentei ondas gigantescas; bestas magníficas, e quando quase desistia, quase morri numa tormenta, quase adormeci no barco à deriva, quase apareci numa ilha digna de camões, o poeta português; eis que uma moça me entregou em mãos uma cesta de frutas e pães, e quando já estavamos nós todos fartíssimos, sumira, e no fundo da cesta, a sua rama, que entrego aqui ajoelhado

(ajoelha o príncipe com sorriso satisfeito no rosto)

servo (bravo): eu sou o ourives! senhor, que me pague! já que passamos três anos talhando esta rama numa choupana beira-mar! viagem, diga lá viajem;

K: insulto! (ao servo:) leve a rama de pagamento. Se houve ondas, são as que chorei.

o príncipe que acionou contatos na china

Perdoa-me princesa, pois achei um robe idêntico; foi um mendigo quem o achou, depois do príncipe das chinas ter perguntado a toda sua população sobre o paradeiro de tal veste. Porém, o mendigo disse, cada vez que o põem no fogo, mais belo fica, e lá seria possível ficar mais lindo que isso, mendigo, sim, acho que sim, e então tudo virou cinza, agora choro pois não posso te ter.

ao menos foste sincero, apesar da preguiça tanta, e além do mais, serve-te de consolo que choro também? por três anos chorei;

o príncipe que não foi à índia

andei sóis e sóis, por sobre terra, por sobre pedras, por cima do mar; no meio do caminho, não havia nenhuma velha senhora que me oferecesse uma vasilha d'água que fosse. de lá trouxe de presente a vasilha de sidarta!

testarei-a, e descobrirei-a falsa: não reluz por si só no breu da noite!

até aí, também não reluz assim a lua, nem mesmo teus cabelos!

insulto! compraste a vasilha na mesbla!

a princesa da noite radiante

nascera do temanho de um polegar, do ventre de um bambu; imprudente taketori no okina, ouvira um silvo e um chocalho na planta, daí inocentemente cortou bambu: e se fosse uma cobrinha daquelas que se escondem em bambu?

kaguya-hime era agora moça linda, e seus cabelos brilhavam tal qual brilhava a lua, apesar de negros, lisos, escorridos; da pele alva, dos lábios de hibisco, logo as notícias de tão bela donzela-princesa se espalharam por todo o japão; cinco príncipes vieram em sua busca, dois do norte, outro de kyoto, mais um de edo e outro de nagoya.

a donzela não era moça tão pura quanto enganava a cor de seu cabelo: pediu riquezas a cada um dos príncipes (não lhe bastava serem príncipes)

requereu demonstrações magníficas de perseverança e braveza.

a um, ordenou que viajasse a pé até capilavastu, donde traria o pote de sidarta, o buda;

ao segundo, pediu-lhe que subisse o monte horaï e lá colhesse a rama da árvore preciosa, da qual brotam galhos de ouro, frutos de quartzo e pétalas de brilhante;

o terceiro devia-lhe o mítico robe de pele de rato de fogo chinês, que não fosse produzido em nenhuma das gigantescas linhas de produção que hão na china;

o príncipe de edo deveria arrancar do pescoço do maior dragão, o colar de pedra quente cuspida das entranhas da terra por este portado. estranho isso; a princesa era da lua -

o último, príncipe de nagoya, trazer-lhe-ia o búzio nascido das andorinhas e que caíra no fundo do mar revolto das cercanias da ilha formosa.



Pouco importa, se Kaguya chorava.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

já eu, nunca li clarisse (expurgo)

tanto que nem sei escrever o nome dela direito.

mas já dei vários de seus livros de presente, com dedicatórias afetuosas e algumas afetadas...

cadê a poesia do interior deste país que eu ainda não achei?
nessa gente dura e desconfiada
que silencia em resposta
não consigo achar, não sei onde tem...

não é no matagal
não é na linha de trem, nem é na desorganização irritante das linhas rodoviárias urbanas.

não achei poesia nos grandes parques ou avenidas.

não achei poesia na destruição da antiga rodoviária.

não achei nada.

não achei música

não achei poesia

não tem nada.

só que, vi olhos verde-água.

domingo, 4 de abril de 2010

o amor e o transporte público

apita a sirene, plataforma de estação
e entra no metropolitano paulista a portadora de gigantes olhos verdes que me lembram até do mar enorme da minha cidade natal;

de pé, segurando a barra de metal, eu aqui sentado na cadeira reservada a idosos e gestantes, fixo nessas órbitas o pequeno astro que habito, no reflexo da janelinha entreaberta (o trem ainda é dos mais antigos) eu me perco naquela luz, ela se veste mais ou menos bem e me dá as costas, por um momentinho ali, ela também me olhava no reflexo, mas não, só via se o trem ia pra lá ou pra cá, de que lado da estação ia descer.

moça, estico o braço, quer sentar, não obrigada, já vou descer, desceu, e eu ali, indo pro terminal, amei por uma eternidade, me aliviei da dor, me dei morno, deesci do trem, me doeu muito, fiquei mal, na fossa, recuperei e estou aí de novo, pronto pra me apaixonar pela moça que comprou o bilhete da ponte rodoviária logo antes de mim, mas aí não tinha mais poltrona do ladinho dela, e aí de novo eu fui. tudo amor em pequena escala, de escala em parada, dormir acordar, amor em miniatura, em transporte coletivo pago pelo icms recolhido pelo governo do estado de são paulo. cada vez mió.

(esse assunto ainda merece observações mais estruturadas...)

terça-feira, 23 de março de 2010

vida em sociedade

uma vez
uma vezinha
saí da linha
dei na escada e desenhei de giz alguma coisa na garagem da vizinha;

uma vez uma vizinha
me ofereceu bolo de giz na garagem da betinha

uma vez, duas vizinhas

outra vez, outra vizinha me deu bolo de garagem de vizinha. amén.

sábado, 20 de março de 2010

dentro de nós já há tanta coisa coisa que eu nem sei mais contar;
tanta víscera, tanto medo, tanto desejo e tanto altar

tanto quanto tanto muito tanto tinto tanto porto, tanto mar.

sexta-feira, 19 de março de 2010

estudos de haikai sobre édipo, I.

tranco a porta;
um olhar de relance
rasgo teu ventre.

penetra
cordão umbilical.

cheiro de suor
abraço depois do colégio
lábio úmido, boca aberta

lambo teu gozo
sorvo teu leite
regozijo.

me deito em teus seios
nos teus seios me deito
sonho; ronco.

lençóis sujos
sofá de casa
lava

o lábio me fere -
um beijinho de tchau e choro
-um beijo de tchau e choras.

parado

assim aqui no meio de tudo
eu sou um eixo magistral
um enorme pólo de referência
um apoio
um imã para agulhas de bússola e desgraças alheias.

pra onde vou sentado

sentado e só, vou à todo lado, a nado, anágua, na água, no mar

...anália me pôs sentado e foi-se embora...

anália nunca mais volta...

eu fico sentado aqui, meio andando meio parado, E como se move;
cambalhotas.

de pé

de pé no ônibus
seguro firme a barra
de metal
olho pro cemitério
tão bonito
tão vazio
de pé no frio
parado cortando vento

de pé no canteiro central da avenida central na região do centro
imobilíssimo
centro imóvel
um imóvel no centro
não o mobiliarei com sofá algum
assisto tv de pé

sentar

faz vinte anos que eu me sento
e espero feito um vladimir a sorte chegar
faz vinte anos que eu me sento nesse cubículo de escritório
na fila do inss
no setor de contas à pagar.

faz vinte anos que eu estou sentado no meu palio fire
esperando o trânsito desafogar. meu terno já está bem fora de moda.

quarta-feira, 10 de março de 2010

amargar (la mer)

sente a textura do sal roçando entre as polpas dos dedos
tempera a carne


o sal entra na ferida, séca e arde, mas séca, sêca a ferida, amarga (de amargar) e cura

logo que acorda, quando os nervos estão ainda sensíveis,
sente a textura do sal por entre os dedos, entre as palmas, entre nós, no mar

entre a ferida e a água do mar
entre o vento e o mar
o diálogo do vento
e do mar

em mil novecentos e noventa a resolução wha43.2 da assembleia mundial da saúde aprovou o objetivo de eliminar a idd como problema de saúde pública. em mil novecentos e noventa e três a oms o unicef o conselho internacional para o controle das perturbações causadas pela carência de iodo recomendaram a utilização universal de sal marinho iodado como principal estratégia para se conseguir a eleminação das idd. o sal marinho é extraído, no brasil, principalmente das regiões do rio grande do norte e paraíba.

terça-feira, 9 de março de 2010

andei por aí
enxerguei e desisti
procurei bambu
fui andar no matagal de santo joão pra procurar bambu;
não achei

uma faquinha pra cortar bambu, não achei, uma pequena flautinha, nem queria

quarta-feira, 3 de março de 2010

tsuki e momiji, estudos de haiku

aqui tanto vim
me era esperado
nada encontrei

que aconteceu
indaga a adaga
cortei-me só

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

pequena história da música

schönberg entrou num bar e pediu uma tônica

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

ballet nô-gagaku

entra homem de branco; dança alegre.

cena I - homem de branco encontra pétala de flor.

cena II - homem de branco come pétala de flor.

cena III - a moça desce a torre e vem ao encontro do homem de branco; homem de branco some.

Ato segundo:

cena única: petruchka morre: a dança do adeus, totentanz.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

ofício do registro civil das pessoas naturais de santos

Quando nasci, logo puseram-me em papel;
quando morrer, me porão também.

e nós poetas que fazemos? ninguém nasce aqui, a poesia, uns dizem, é até morta

Quando nasci, logo virei algo que podia ser empoeirado, ainda mais considerando que sou pessoa natural de Santos, lugar que trás poeira fácil nos ventinhos. As traças comem minha existência, eu guardo meu ser numa pastinha amarela que quando preciso, nunca acho.

a gente só gosta é de brincar de lego com as palavras no porão
que me porão em morte e me puseram em vida abaixo do solo, escuro, defunto, cheio de blocos nos por-voltas, um túnel de metrô, um emissário submarino, cheio de lama e peixe. um manguezal.

O cidadão, ao atingir dezoito anos, torna-se útil para a sociedade.

Quando eu nasci, não era útil, não fazia nada. Quando nasci puseram-me logo em papel, pra evitar que eu fugisse ou virasse abstração.

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chora, chora, chora, pára. era só olhar o bebê que tudo o mais dissolvia. o bebê não tinha contorno e nasceu bem em cima da divisa.



aos nove anos, faminto, finalmente dignificaram-lhe um nome: jean valjean (nem precisava).