Eu encaro os fatos essenciais da vida.
Mas, e se, quando eu vier a morrer, descobrir que não vivi?
terça-feira, 30 de junho de 2009
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Yo Soy María.
“I hate these days of white hazy lights that shyly shine slendering through the clouds
And I hate the stage as much as Night,
Who lies on the soft lawn to tell me she lies, her lies;
But they sound so pure”
Começo aqui a escrever um livro provindo de outro livro provindo doutro livro cujo autor diz que ‘livros não provêm de outros livros’. Começa aqui o penúltimo épico brasileiro. Aqueles livros eu nunca li; estes são os meus dizeres:
Era noite em Buenos Aires. Era a Noite de Buenos Aires que me fazia mal. A Noite vem com tal facilidade crepuscular que parece assediar os vagabundos, os criminosos de adultérios, os recatos, católicos de monastério. Atravessa a Cisplatina pé ante pé como fosse seu quarto (atravessara, de fato, de cama em cama, quarto em quarto; nenhum seu), o corredor, o céu do leste ao oeste, as amarras de um navio e ela o gatuno hábil. Ela era mesmo autora de ladroagens abstratas reconhecida pelos devidos conselhos e ministérios. Por fazer-lo fácil: personagens não se inventa. Personagens não se inventam. Observa-se, ou rouba-se (anotar a observação já é roubar da realidade); empresta de tomado e desenvolve-se em prosa cantada. María de Buenos Aires, então, já existia havia cinquenta anos, porém desde então jaz aos vinte e sete, e nós que discorremos sobre tais tipos somos tão gatunos quanto ela. Perto de Machado ou Saramago, sou só um trombadinha de Ipanema.
ela altura de Porto Alegre num trevo da BR-116 María pedia carona, María vendia carinho. Quem fora Régis Bittencourt Maria não o sabia. María fazia erres de jotas e esses entremeados em palavras quando dizia que ‘le gustaría llegar a San Paulo’, mas María, ah, María se encantara com a vista da descida da Rodovia Anchieta, quem não se encanta afinal quando vê São Vicente tão de longe, mas não sabia que maior ainda seria seu espanto quando visse Santos bem de perto. Nos arredores da Consolação Dr. Haddock Lobo disse à jovencita María que toda aquela Paulista que por ali se estende e separa os pinheiros da sé não se daria ali, se não soprasse o vento marinho serra acima; se não se tivesse feito daquele mangue insular aterro desterro desespero e monotonia, uma Liverpool subtropical. Ali María também vira, oh María(,) vira que era mesmo María Noctem, María pasión fatal, assombrando as graças e espantando as honras de freis e senhoras da boa-venturança. Maria era puta que tinha glamour e daí cunhava o prazer daí dos boas de pluma da saia curta e preta da calcinha de rendas brancas e transparentes das botas frias de colocar dos salto e bico finos que tanto incomodavam até as mentes mais sãs até o senhor mais careca com a camisa de gola e manga curta mais xadrez e a calça mais social mais marrom e mais vincada ostentando o bigode de escovinha desproporcional ao tamanho de sua pança até este arnaldo botelho contador formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo desencostava os lábios um do outro um pouco um tiquinho que fosse quando pela manhã escondia os Classificados da Folha de São Paulo dentro do caderno Mundo depois de entregar o Caderno 2 à filha séria de dezessete anos, séria demais pra quem tem dezessete anos inclusive, e então percorria com os olhos a sessão que todos percorrem só por curiosidade só para encontrar Marina de boca pequena e carnuda pele macia e estatura miúda e que faz tudo com o rabo farto e depois empalidecer suar comprimir de novo, os lábios, cobrava cento e oitenta reais, e largar, o jornal. Abocanhava então a torrada como fosse Marina, carnuda, em gozo. María se deliciava ao deleite dos outros e com o deleite dos outros, mas o seu gozo era só seu. E ela não queria nem saber.
María não era triste nem feliz, não se dizia pela expressão. Levava o rosto um pouco abaixado e o fazia duro, suas sobrancelhas retas; o olhar por baixo por cima, de lado, nunca no eixo e os lábios nas suas ranhuras estavam sempre segurando algo que eu não saberia dizer se era uma palavra indizível um verso tão medonho uma palavra de amor (que acabaria com o seu negócio – uma reflexão do ócio) uma vontade de fumar todavia era somente sua língua de liquidificador.
Até agora falei muito e pouco disse: a partir de agora direi nada e tudo falará por si só; pois foi sem uma palavra precedente que María me olhou diminuiu reduziu à infinita pequenez e fez do meu corpo página em branco, e eu fiz do seu montanha inatingível, como é de costume entre as pessoas da minha idade. Aqui eu passo da onisciência à compreensão da minha ignorância sobre a história imparcial sobre a assentimentalidade sobre seu oposto sobre tudo que não for meu e até o que é meu e eu não conheço.
María de certo era uma mulher daquelas que andavam com uma faca a tiracolo, amarrada na coxa larga embaixo da saia ou na bolsa; agora chamavam-na de Marina, Pois que Maria é nome de santa, dizia, mas quando a descobri puta com nome de santa, bom, só isso mesmo conseguiu me converter à fé cristã. Quando Marina punha o pé na soleira, já era dia, e dava descanso à faca num móvel velho de sala, olhava o decote no espelho, essa era María Rojas, singela, e seu gozo era só seu. María arrancava a indumentária e a parafernália que lhe desconfortavam e agora descalça (nua) sentava num sofá de almofadas rotas, e, trazendo de encontro ao lugar mais frequentado da região um violão, desabava em lamentos espanhóis que seu avô lhe ensinara. María não conseguia largar-se de todo do pesado, do passado. Dançava conforme a música: pela noite ser leve, mudava de nome, esquecia o sotaque, o sobrenome e as roupas; já no dia, pesado, cantava os prados da Argentina e as esquinas de Madrid. Dormia nunca. Eu, de memória curta, enrolado em pesadas cortinas que cheiravam a mofo e àquilo que cheiram as pernas e os peitos de María, sincronizava a minha respiração com os soluços de María enquanto tentava hablar con las luces que disseram que la olvidaría. No olvidé. Jamás.
And I hate the stage as much as Night,
Who lies on the soft lawn to tell me she lies, her lies;
But they sound so pure”
Começo aqui a escrever um livro provindo de outro livro provindo doutro livro cujo autor diz que ‘livros não provêm de outros livros’. Começa aqui o penúltimo épico brasileiro. Aqueles livros eu nunca li; estes são os meus dizeres:
Era noite em Buenos Aires. Era a Noite de Buenos Aires que me fazia mal. A Noite vem com tal facilidade crepuscular que parece assediar os vagabundos, os criminosos de adultérios, os recatos, católicos de monastério. Atravessa a Cisplatina pé ante pé como fosse seu quarto (atravessara, de fato, de cama em cama, quarto em quarto; nenhum seu), o corredor, o céu do leste ao oeste, as amarras de um navio e ela o gatuno hábil. Ela era mesmo autora de ladroagens abstratas reconhecida pelos devidos conselhos e ministérios. Por fazer-lo fácil: personagens não se inventa. Personagens não se inventam. Observa-se, ou rouba-se (anotar a observação já é roubar da realidade); empresta de tomado e desenvolve-se em prosa cantada. María de Buenos Aires, então, já existia havia cinquenta anos, porém desde então jaz aos vinte e sete, e nós que discorremos sobre tais tipos somos tão gatunos quanto ela. Perto de Machado ou Saramago, sou só um trombadinha de Ipanema.
ela altura de Porto Alegre num trevo da BR-116 María pedia carona, María vendia carinho. Quem fora Régis Bittencourt Maria não o sabia. María fazia erres de jotas e esses entremeados em palavras quando dizia que ‘le gustaría llegar a San Paulo’, mas María, ah, María se encantara com a vista da descida da Rodovia Anchieta, quem não se encanta afinal quando vê São Vicente tão de longe, mas não sabia que maior ainda seria seu espanto quando visse Santos bem de perto. Nos arredores da Consolação Dr. Haddock Lobo disse à jovencita María que toda aquela Paulista que por ali se estende e separa os pinheiros da sé não se daria ali, se não soprasse o vento marinho serra acima; se não se tivesse feito daquele mangue insular aterro desterro desespero e monotonia, uma Liverpool subtropical. Ali María também vira, oh María(,) vira que era mesmo María Noctem, María pasión fatal, assombrando as graças e espantando as honras de freis e senhoras da boa-venturança. Maria era puta que tinha glamour e daí cunhava o prazer daí dos boas de pluma da saia curta e preta da calcinha de rendas brancas e transparentes das botas frias de colocar dos salto e bico finos que tanto incomodavam até as mentes mais sãs até o senhor mais careca com a camisa de gola e manga curta mais xadrez e a calça mais social mais marrom e mais vincada ostentando o bigode de escovinha desproporcional ao tamanho de sua pança até este arnaldo botelho contador formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo desencostava os lábios um do outro um pouco um tiquinho que fosse quando pela manhã escondia os Classificados da Folha de São Paulo dentro do caderno Mundo depois de entregar o Caderno 2 à filha séria de dezessete anos, séria demais pra quem tem dezessete anos inclusive, e então percorria com os olhos a sessão que todos percorrem só por curiosidade só para encontrar Marina de boca pequena e carnuda pele macia e estatura miúda e que faz tudo com o rabo farto e depois empalidecer suar comprimir de novo, os lábios, cobrava cento e oitenta reais, e largar, o jornal. Abocanhava então a torrada como fosse Marina, carnuda, em gozo. María se deliciava ao deleite dos outros e com o deleite dos outros, mas o seu gozo era só seu. E ela não queria nem saber.
María não era triste nem feliz, não se dizia pela expressão. Levava o rosto um pouco abaixado e o fazia duro, suas sobrancelhas retas; o olhar por baixo por cima, de lado, nunca no eixo e os lábios nas suas ranhuras estavam sempre segurando algo que eu não saberia dizer se era uma palavra indizível um verso tão medonho uma palavra de amor (que acabaria com o seu negócio – uma reflexão do ócio) uma vontade de fumar todavia era somente sua língua de liquidificador.
Até agora falei muito e pouco disse: a partir de agora direi nada e tudo falará por si só; pois foi sem uma palavra precedente que María me olhou diminuiu reduziu à infinita pequenez e fez do meu corpo página em branco, e eu fiz do seu montanha inatingível, como é de costume entre as pessoas da minha idade. Aqui eu passo da onisciência à compreensão da minha ignorância sobre a história imparcial sobre a assentimentalidade sobre seu oposto sobre tudo que não for meu e até o que é meu e eu não conheço.
María de certo era uma mulher daquelas que andavam com uma faca a tiracolo, amarrada na coxa larga embaixo da saia ou na bolsa; agora chamavam-na de Marina, Pois que Maria é nome de santa, dizia, mas quando a descobri puta com nome de santa, bom, só isso mesmo conseguiu me converter à fé cristã. Quando Marina punha o pé na soleira, já era dia, e dava descanso à faca num móvel velho de sala, olhava o decote no espelho, essa era María Rojas, singela, e seu gozo era só seu. María arrancava a indumentária e a parafernália que lhe desconfortavam e agora descalça (nua) sentava num sofá de almofadas rotas, e, trazendo de encontro ao lugar mais frequentado da região um violão, desabava em lamentos espanhóis que seu avô lhe ensinara. María não conseguia largar-se de todo do pesado, do passado. Dançava conforme a música: pela noite ser leve, mudava de nome, esquecia o sotaque, o sobrenome e as roupas; já no dia, pesado, cantava os prados da Argentina e as esquinas de Madrid. Dormia nunca. Eu, de memória curta, enrolado em pesadas cortinas que cheiravam a mofo e àquilo que cheiram as pernas e os peitos de María, sincronizava a minha respiração com os soluços de María enquanto tentava hablar con las luces que disseram que la olvidaría. No olvidé. Jamás.
domingo, 28 de junho de 2009
Sapateado desgastado
Quando eu dançava...
não era dançarino assíduo.
Agora eu danço...
e não tenho ninguém para dançar comigo.
Dança junto, desafino, desanimo.
Que valem as ridículas vaidades de gente que não dança?
No carrossel da vida...
A toi toujours
não era dançarino assíduo.
Agora eu danço...
e não tenho ninguém para dançar comigo.
Dança junto, desafino, desanimo.
Que valem as ridículas vaidades de gente que não dança?
No carrossel da vida...
A toi toujours
quinta-feira, 18 de junho de 2009
pardon my french, monsieur Picasso, à qui appartient ce poème
Je ne trichent pas
Je ne suis pas quelqu'un d'autre;
je ne suis même pas cette personne.
pas la peine de mes ou de feuilles de papier;
je suis le livre;
je suis le cahier.
Je ne suis pas quelqu'un d'autre;
je ne suis même pas cette personne.
pas la peine de mes ou de feuilles de papier;
je suis le livre;
je suis le cahier.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Av. Presidente Vargas
Uma luz reside
no fim do túnel do leão
e outras 34 em seu curso;
estas entram pelas cortinas sem pedir licença,
dão a entender a desavença
me acordam muito cedo
e eu assisto a silhueta do seu nariz durante a Av. Presidente Vargas
no fim do túnel do leão
e outras 34 em seu curso;
estas entram pelas cortinas sem pedir licença,
dão a entender a desavença
me acordam muito cedo
e eu assisto a silhueta do seu nariz durante a Av. Presidente Vargas
domingo, 14 de junho de 2009
Sobre resumo e plágio:
amou daquela vez como se pudesse amar
beijou sua mulher como se houvesse alguma
construção de operário na tarde de sábado; morreu.
beijou sua mulher como se houvesse alguma
construção de operário na tarde de sábado; morreu.
terça-feira, 9 de junho de 2009
Sobre o dentro, o fora, Kundera, e a morte
Eu derramo papel de sangue
mas sem lágrimas;
é sangue frívolo
costumeiro.
insosso.
No papel jaz a morte,
Fora, a leveza;
Dentro o peso cardíaco se espalha pelo chão.
Vestido de preto não por luto ou rebeldia, mas porque é frio o dia;
Embala o poema absoluto de Leibniz os alunos a dormirem.
Não são tão inversos, o leve, o peso;
Não há régua que meça a infinitude pequeníssima que os separa (vida, morte: severina)
Um capilar rompido liga o leve e o pesado
Mordida de uma
Arranhão da outra
Pequenas mortes que valem a pena.
mas sem lágrimas;
é sangue frívolo
costumeiro.
insosso.
No papel jaz a morte,
Fora, a leveza;
Dentro o peso cardíaco se espalha pelo chão.
Vestido de preto não por luto ou rebeldia, mas porque é frio o dia;
Embala o poema absoluto de Leibniz os alunos a dormirem.
Não são tão inversos, o leve, o peso;
Não há régua que meça a infinitude pequeníssima que os separa (vida, morte: severina)
Um capilar rompido liga o leve e o pesado
Mordida de uma
Arranhão da outra
Pequenas mortes que valem a pena.
domingo, 7 de junho de 2009
wake up
O curaçau me queimou as idéias.
Caí nos bafos do exaspero que desbotaram-me a vida.
Na fria palidez, na ironia da glória, sei que algo encheu meu coração de nada.
Nossos corpos crescem e os corações despedaçam, em homenagem, metamorfosear à fuligem.
por isso, quero acordar
e reviver ao fresco do viver mais puro.
Incipientes
For twenty years we have been searching earth, someone sane, but there has not come to us a word - no, not one.
And while the whole world is in sunlight, futility lies in darkness.
As punishment for the white blindness, thou sall exist for millions of millions of years.
For millions of millions of year
And while the whole world is in sunlight, futility lies in darkness.
As punishment for the white blindness, thou sall exist for millions of millions of years.
For millions of millions of year
sexta-feira, 5 de junho de 2009
aflição silenciosa em barcos vazios
O amor acabou. Eu dou dois passos para trás a fim de reverenciar seus momentos remanescentes.
Então eu faço uma autópsia míope.
As caras estão borradas. Seria eu ou ela a sofrer da queda.
E assim há somente as cordas e cantos da balada dos solitários.
Então eu faço uma autópsia míope.
As caras estão borradas. Seria eu ou ela a sofrer da queda.
E assim há somente as cordas e cantos da balada dos solitários.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Take Five
As a boy I was amazed
by the way jazz was meant to be played,
listen to the base,
look at the drums,
look at the way he plays.
The jack with the baloon lungs,
burning drags, I dig.
The heat, the hep,
the beat and the cat.
To jive and jump in the jam,
I'm a smoking scat, man!
And we're just a two beat band.
by the way jazz was meant to be played,
listen to the base,
look at the drums,
look at the way he plays.
The jack with the baloon lungs,
burning drags, I dig.
The heat, the hep,
the beat and the cat.
To jive and jump in the jam,
I'm a smoking scat, man!
And we're just a two beat band.
terça-feira, 26 de maio de 2009
Adriana-toca-o-céu.
espreguiça adriana;
estica o braço - toca o céu.
-------------------------------------
I.
adriana tocava o céu pois era leve;
sr. português, tu nunca o farás, pois pesam os tijolos e blocos e vigas de aço da gerdau na tua construção. Pois leve é esse pão pra comer, esse chão pra dormir (mas não o que o cobre) -deus lhe pague- relembra o empregado da construção, como se fosse o único.
aquele prédio feio por onde adriana passava se erguia como outra adaga a ferir o céu da cidade que já não se importava. Agora nela residia tudo que não era dali, erguidos tortos prédios quadrados sobre a areia suja e o mar manchado de petróleo apresentado tal qual uma enorme vaca marrom e preta era a vista da qual usufruía. Guaiaó se vingava com a chuva constante que molhava a carga do porto e o ferro exposto o qual com o tempo fazia da ferrugem a estética dramática do sangue, apesar de não ser vivo ou morto; ser ferro. Mas o português domou a vingança com canais sujos, outrora a garantia da assepsia santista, hoje casa de garças.
adriana era leve. surgira de um céu quase limpo numa rua quase vazia. adriana só queria poder deitar na larga avenida e achar que poderia deitar no chão para cair no profundo firmamento. Só.
(hay que tener más...)
estica o braço - toca o céu.
-------------------------------------
I.
adriana tocava o céu pois era leve;
sr. português, tu nunca o farás, pois pesam os tijolos e blocos e vigas de aço da gerdau na tua construção. Pois leve é esse pão pra comer, esse chão pra dormir (mas não o que o cobre) -deus lhe pague- relembra o empregado da construção, como se fosse o único.
aquele prédio feio por onde adriana passava se erguia como outra adaga a ferir o céu da cidade que já não se importava. Agora nela residia tudo que não era dali, erguidos tortos prédios quadrados sobre a areia suja e o mar manchado de petróleo apresentado tal qual uma enorme vaca marrom e preta era a vista da qual usufruía. Guaiaó se vingava com a chuva constante que molhava a carga do porto e o ferro exposto o qual com o tempo fazia da ferrugem a estética dramática do sangue, apesar de não ser vivo ou morto; ser ferro. Mas o português domou a vingança com canais sujos, outrora a garantia da assepsia santista, hoje casa de garças.
adriana era leve. surgira de um céu quase limpo numa rua quase vazia. adriana só queria poder deitar na larga avenida e achar que poderia deitar no chão para cair no profundo firmamento. Só.
(hay que tener más...)
segunda-feira, 18 de maio de 2009
bandeirante paulista
A bota crava o charco
Pisa pelo índio filho da morte;
facão empunhado na mão destra.
Atrás de ti vêm três brancos
Vinte índios;
Caminhando no meio vêm brasileiros, armas carregadas,
Filhos das virgens-de-mel estupradas.
“Nação que é toda nascida bastarda” – reza a carta de Pero Vaz;
“Este é meu testemunho – É a lembrança do que há por vir”
Na mão sinistra, a contraponto de facão
Vem hasteada a bandeira listrada
por sete vezes negra, por outras alva;
Manchada de um tanto de sangue
Que o tempo não alvejou.
Pisa pelo índio filho da morte;
facão empunhado na mão destra.
Atrás de ti vêm três brancos
Vinte índios;
Caminhando no meio vêm brasileiros, armas carregadas,
Filhos das virgens-de-mel estupradas.
“Nação que é toda nascida bastarda” – reza a carta de Pero Vaz;
“Este é meu testemunho – É a lembrança do que há por vir”
Na mão sinistra, a contraponto de facão
Vem hasteada a bandeira listrada
por sete vezes negra, por outras alva;
Manchada de um tanto de sangue
Que o tempo não alvejou.
Lusitânia continua aqui:
A minha terra tem palmeiras
Que não são de lá
Aves europeias
Forçadas a migrar
Mulheres(,) que não são daqui(,)
Todas as mulheres dali
Para donde vieram hão de voltar
Portugal, pequena joia
te espera de braços abertos, fechados
nus os corpos, nas mãos os cravos
sob os pés jaz salazar
No teu seio, menos amores;
Pois o corta o rio da vila de Pessoa
E te corta
(por Lisboa, vem de Espanha, te corta à porta)
Te corta a porta, Portugal,
do mar sem fim que é português
Pois te deitas além donde Atlas alcança
Portanto às Quinas de Afonso Henriques,
Mandas lembranças do que há por vir.
Amores que não tens, mas que hão de vir.
Que não são de lá
Aves europeias
Forçadas a migrar
Mulheres(,) que não são daqui(,)
Todas as mulheres dali
Para donde vieram hão de voltar
Portugal, pequena joia
te espera de braços abertos, fechados
nus os corpos, nas mãos os cravos
sob os pés jaz salazar
No teu seio, menos amores;
Pois o corta o rio da vila de Pessoa
E te corta
(por Lisboa, vem de Espanha, te corta à porta)
Te corta a porta, Portugal,
do mar sem fim que é português
Pois te deitas além donde Atlas alcança
Portanto às Quinas de Afonso Henriques,
Mandas lembranças do que há por vir.
Amores que não tens, mas que hão de vir.
'le absolute' poém (toute la poésie)
S(t+h) - s(t) = t² + 2th – 8t – 8h + 18 – t² + 8t – 18 + [h²
= 2th – 8h
= 2th – 8h.
= 2th – 8h
= 2th – 8h.
água de maio - a bossa contínua
É fumo, É bala, É flor
É mato cortado, é galho sem cor
Nem pau, nem pedra
Começo de mês
Ceia derradeira
Avião sem vez
Nem pau, nem pedra
sabiá-passarinho
de galho sem cor
Sabiá fez seu ninho
É um buda-maçã
Um buda ditoso
Um amigo de pé
É o cão curioso
Faz frio, faz calor
Faz preguiça no chão
Espreguiça, alcança o teto
Toca o céu com a mão
É mato cortado, é galho sem cor
Nem pau, nem pedra
Começo de mês
Ceia derradeira
Avião sem vez
Nem pau, nem pedra
sabiá-passarinho
de galho sem cor
Sabiá fez seu ninho
É um buda-maçã
Um buda ditoso
Um amigo de pé
É o cão curioso
Faz frio, faz calor
Faz preguiça no chão
Espreguiça, alcança o teto
Toca o céu com a mão
raízes desbotadas
Poemas tristes com um sorriso na boca.
se exprimo minha infelicidade com tanta felicidade, como posso ser infeliz?
Posso escrever sobre amores perdidos, noites frias, astros à distância.
Mas não.
Eu e você, partilhando um copo de solidão.
Bom, ainda assim é melhor que beber sozinho.
E tudo parece um carnaval. Quem não está disposto a uma dança?
Dançando com o tempo, intransigente, as horas passam. mal vividas?
não há bem ou mal. há o despovoado e o profundo, do qual nada persiste.
Nada pode sentir errado, mesmo que por poucos instantes.
se exprimo minha infelicidade com tanta felicidade, como posso ser infeliz?
Posso escrever sobre amores perdidos, noites frias, astros à distância.
Mas não.
Eu e você, partilhando um copo de solidão.
Bom, ainda assim é melhor que beber sozinho.
E tudo parece um carnaval. Quem não está disposto a uma dança?
Dançando com o tempo, intransigente, as horas passam. mal vividas?
não há bem ou mal. há o despovoado e o profundo, do qual nada persiste.
Nada pode sentir errado, mesmo que por poucos instantes.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
terça-feira, 12 de maio de 2009
me pega de surpresa
Quando escrevo sonetos ao léu
me lembro de neruda
mas logo me perco
perco a decassibilidade (levo as mãos à cabeça e falo; ai)
neruda e a revolução são quietos
já eu, grito por nada.
me lembro de neruda
mas logo me perco
perco a decassibilidade (levo as mãos à cabeça e falo; ai)
neruda e a revolução são quietos
já eu, grito por nada.
assim;
eu te escreveria, mas a luz do sol não deixa, poema;
te descreveria assim como uma onda que cresce de um desenho em nanquim japonês,
mas não sei
Pálpebras vermelhinhas encarnadas de maquilage, piscam, piscam, escarlate
Até virar a luz do avesso
assim;
te descreveria assim como uma onda que cresce de um desenho em nanquim japonês,
mas não sei
Pálpebras vermelhinhas encarnadas de maquilage, piscam, piscam, escarlate
Até virar a luz do avesso
assim;
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Poemas rápidos para noites frias
A beleza que existe,
na terra, no céu, no mar, no luar, no protetor solar das tardes ensolaradas de domingo,
das clicadas na minha polaróide plástica, destinada aos albúns de alguns,
das suas investidas e suas felicidades, num simples jogo de bingo,
do jogo da vida, das vontades incomuns.
Pelos canteiros de espinho e flores,
a beleza que existe, o amor revelado,
o triste impasse pelo leite derramado,
no deserto negro, quero ver você, lá
você me pegar.
na terra, no céu, no mar, no luar, no protetor solar das tardes ensolaradas de domingo,
das clicadas na minha polaróide plástica, destinada aos albúns de alguns,
das suas investidas e suas felicidades, num simples jogo de bingo,
do jogo da vida, das vontades incomuns.
O amor que existe,
dos casais que se amassam, o amor no banco da praça,
no claro escuro do cinema, o amor do beijo dentre a imagem que passa,
e nessa noite que a lua veio brincar, você está sozinha,
e só eu percebo, que você é minha.
Pelos canteiros de espinho e flores,
a beleza que existe, o amor revelado,
o triste impasse pelo leite derramado,
no deserto negro, quero ver você, lá
você me pegar.
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